A coluna do jornalista e filósofo Hélio Schwartsman, no dia 25/08:




"Desenvolvo hoje um matéria publicada na última segunda, mas que, por imposições do espaço físico, saiu num tamanho muito menor do que o ideal. A ideia era mostrar alguns experimentos que, tomados pelo valor de face, nos fazem perder a fé no gênero humano. Eles revelam fraquezas fatais da espécie, vieses constrangedores e ilusões cognitivas comprometedoras.


Antes, porém, de concluir pela inviabilidade do Homo sapiens, vale lembrar que também seria possível levantar experiências que sugerem, à maneira de Rousseau, uma natureza humana boa, capaz de altruísmo autêntico, de transcendência e de produzir conhecimento. O problema é que, entre os "bugs" implantados em nosso cérebro, está um que nos impele a ver o mundo como uma sucessão de dicotomias --somos bons ou maus?, a vida tem ou não um propósito?, somos só bichos ou ultrapassamos a animalidade?--, quando a realidade é mais bem descrita num "continuum", que admite o convívio de nossas falhas e virtudes.


Meus amigos do caderno Ciência fizeram o que era possível para adequar as copiosas descrições que eu lhes enviara aos parâmetros do jornal que, receio, sacrifique cada vez mais os textos em favor de imagens e outras firulas. Mas, como eu acho que frequentemente a genialidade de um experimento está em seus detalhes, volto à carga, trazendo mais casos (não couberam todos) e seus às vezes indispensáveis pormenores. Prometo, porém, que vou poupar o leitor das tecnicalidades mais aborrecidas. Divirtam-se.



1. Stanford Prison Experiment (SPE)
O que importa é o caráter das pessoas, certo? Talvez não. Em 1971, o psicólogo Philip Zimbardo estava interessado em descobrir se traços de personalidade de prisioneiros e guardas explicavam situações abusivas nas cadeias. Para tanto, decidiu criar um simulacro de xadrez no porão do Jordan Hall (sede do Departamento de Psicologia da Universidade Stanford).


Recrutou 24 voluntários em perfeita saúde mental. Num sorteio, parte do grupo ficou com o papel de guarda, e o restante, com o de prisioneiros. Estes receberam um uniforme e um número, pelo qual passaram a ser chamados. Os guardas ganharam vestes militares, óculos escuros e um cassetete. Foram instruídos a assustar os presos, mas jamais usar força física contra eles.


Rapidamente as coisas saíram de controle. Os guardas começaram a mostrar-se cada vez mais cruéis para com os prisioneiros, que, depois de uma tímida tentativa de rebelar-se, foram aceitando docilmente as humilhações a eles impostas. Eram forçados a participar de contagens e a fazer exercícios como sanções disciplinares. O próprio Zimbardo se deixou absorver pela situação e pelo papel de superintendente. Foi só depois que sua namorada visitou o local e constatou que limites éticos haviam sido rompidos, que o psicólogo começou a questionar a moralidade da situação. No sexto dia, o experimento, concebido para durar duas semanas, foi interrompido (e sob os protestos dos guardas).


A moral da história é que o comportamento dos participantes foi em larga medida ditado pela situação em que se encontravam, com papéis que lhe foram aleatoriamente atribuídos, e não apenas por traços de sua personalidade. É um "insight" para compreender situações como Abu Ghraib e até fenômenos sociais como o nazismo.




2. Milgram
Na mesma linha do SPE, mostra que, quando a situação o exige, pessoas normais são capazes de coisas terríveis. Em 1963, Stanley Milgram, da Universidade Yale, descreveu experimentos nos quais voluntários são convidados por um pesquisador a aplicar choques elétricos num ator como punição por respostas errada num teste de memória. O voluntário, é claro, não sabe que seu companheiro é um ator e que a máquina de choque é falsa. Não obstante, quando instados pelo pesquisador a aumentar a voltagem dos choques falsos, 65% obedeceram até chegar à carga máxima de 450 volts, apesar dos gritos do ator.




3. "Political junkies", o prazer com a contradição
Ao decidir o voto, colocamos a razão a serviço do bem comum, como quer a turma do politicamente correto, ou de nossos interesses, na versão cínica. Esqueça. Isso é bobagem. O psicólogo Drew Westen (Universidade Emory) mostrou que, também na política, as emoções falam mais alto que a lógica. Ele enfiou 15 eleitores do Partido Republicano e 15 do Partido Democrata num aparelho que monitorava a atividade de seus cérebros enquanto seus candidatos do coração apareciam em situação desfavorável. A cada um dos participantes foram apresentadas seis situações fictícias que mostravam flagrantes contradições de John Kerry (candidato democrata), seis de George W. Bush (republicano). Ao final de cada situação, o participante tinha de dar uma nota, indicando se achava que o candidato havia caído em contradição e em que grau, de 1 (discorda fortemente) a 4 (concorda fortemente).


Como previsto, os eleitores não tiveram dificuldade para perceber a contradição do candidato a que se opunham, colocando a avaliação média perto de 4. Já as contradições dos postulantes de sua preferência receberam nota próxima a 2. Analisando as imagens do "scanner", os cientistas puderam reconstituir os passos da razão eleitoral de suas cobaias. Quando os eleitores foram confrontados com informação potencialmente ameaçadora a suas convicções, foram ativadas redes de neurônios associadas a estresse. O cérebro percebe o conflito entre os dados e o desejo e começa a procurar meios de desligar o interruptor que deflagrou a emoção negativa. Em seguida, os circuitos ligados à regulação de estados emocionais recrutam crenças capazes de eliminar o estresse. É por isso que a contradição é apenas fracamente percebida. Os circuitos normalmente envolvidos no raciocínio lógico quase não são ativados.


A surpresa foi constatar que esse processo de relativização das contradições não se limita a desligar as emoções negativas. Ele também dispara emoções positivas, acionando circuitos do sistema de recompensa, que em grande parte coincidem com as áreas ativadas quando viciados em drogas tomam uma dose de manutenção.




4. Professor Fox
O importante é ter conteúdo. Essa é outra balela. Aparências são muito mais importantes. Em meados dos anos 70, psicólogos da Universidade da Califórnia criaram o Dr. Myron L. Fox. Ele era uma fraude. Não havia nenhum Dr. Fox e seu currículo foi completamente inventado. Para representá-lo, contrataram um ator charmoso que deu uma aula sobre "teoria dos jogos matemática aplicada à educação física". A aula não passava de um amontoado de bobagens sem sentido, repleta de frases de duplo sentido, contradições e neologismos. Mas o ator era bom e dizia essas coisas com clareza, confiança e autoridade.


A plateia, composta por psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais, adorou. Na hora de avaliá-lo, deu-lhe notas positivas, incluindo 100% de aprovação no quesito "estímulo ao pensamento".


Vídeos da aula do Dr. Fox foram exibidos a outros públicos, incluindo um formado por professores e administradores de cursos de pós-graduação. E o Dr. Fox recebeu excelentes notas de todas as audiências."


E por aí vai, leia o Artigo na íntegra


Depois da decepção filosófica do artigo, podemos até pensar: "Conhecimento é sofrimento", ideia similar ao filósofo Shopenhauer. Mas na verdade, todo artigo acima, reflete um sério problema dos filósofos: O pessimismo.


O pessimismo não é uma "corrente" recente (utilizei o termo corrente para denotar ao sentido de escolas filosóficas, isso é, empirismo, helenismo, racionalismo, etc), isso é, não surge em Shopenhauer. O pessimismo vem desde os tempos da Grécia, e em questão histórica e humanitária, apenas nos mostrá que sempre existira e existirá o pessimismo. E o porque disso? por vários motivos, dentre eles: experiências de vidas, amores frustrados, período histórico, traumas , o pensamento etc.


Um dos filósofos que trata de analisar o pessimismo e a razão ao se buscar a filosofia  é Nietzsche, do qual, relacionada o pensamento com a decadência. Uma das teorias de Nietzsche, em o "Crepúsculo dos ídolos", afirma à grosso modo que Sócrates só buscou a razão, a filosofia, o amor ao saber, por que ele era feio, e era cansado da vida, talvez em outras palavras, a decadência levou Sócrates à filosofia. 


O que se quer chegar com esse "artigo"?  não me entendam mal, não estou dizendo que Nietzsche estava correto ao fazermos pensar que a decadência nos leva a filosofia, estou na verdade tentando de uma certa forma, mostrar que as vezes é a experiência e o "mal" conhecer  que nos leva à decadência, e que as vezes a filosofia pode sim nos levar a decadência, mas em contraponto, a filosofia pode nos "salvar". (Nietzsche versus Spinoza)


A filosofia pode levar a decadência? Sim, pode (Nietzsche). A decadência pode levar a filosofia ? Sim,pode (Sócrates, se aceitarmos o pressuposto por Nietzsche). Mas a filosofia também pode explicar e até solucionar a decadência.


Enfim, o pessimismo não surge só de uma variável e sim de muitas, mas o que mostrei é que uma delas é o pensar e a experiência, e que o filósofo apesar de  tudo, é humano, isso é: "Humano, demasiado humano" e acima de tudo,  o filósofo é aquele que pode tentar tecer uma melhor interpretação perante ao pessimismo, com o próprio pensar. "Saber pelo saber ao saber positivo, ao saber negativo, ao equilíbrio e principalmente ao saber". Não se enganem, as vezes a verdade pode ser ruim, mas muitas vezes é pela verdade que se acha a solução.


Em suma: Artigo de caráter pessimista, positivista e bom... a questão não era o artigo...


@ogataogara

Ogata Larsen

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