bom... Oi todo mundo :) Como vai a vida? Bom estou aqui, eu, o cara aleatoriamente randominico, para compartilhar um texto, muito, muito interessante de um dos individuos mais intelectuais que eu ja conheci em pessoa. Esse seria o meu professor de redacao da minha epoca de colegio. Leiam o texto e compartilhem seus sentimentos :D


Já fazia três horas que ele estava sentado naquele banco, quase imóvel, olhando o movimento da praça tomada de crianças a brincar. Era uma tarde de janeiro. O sol desfilava toda a sua majestade, amorenando a pele das pessoas. Ainda bem que ele sempre saía com seu chapéu, companheiro de tantos anos. Por que comprar outro? Sentia que não lhe restava muito tempo, apesar de dizerem que estava bem conservado. Humpf! Ele não era azeitona para ficar em conserva! Os anos haviam sido gentis com seu Manuel, isso sim! Aos setenta e dois anos, ainda era um homem robusto. O rosto comprido de traços fortes carregava olhos claros que tinham se tornado tristes e melancólicos com o passar das estações. Nos lados da cabeça, os cabelos brancos traziam a experiência adquirida nas vitórias e derrotas que a vida lhe impusera.

Levantou-se com a ajuda da bengala de carvalho que ganhara de sua neta havia cinco anos. Na verdade, só precisava dela para se pôr de pé, pois andava normalmente sem apoio algum – exceto nas horas em que vinha a tontura. Começou, então, a caminhar em direção a sua casa, que ficava a uns oitenta metros de onde estava. Era uma construção simples, bege, com um pequenino jardim na parte da frente, no qual grandes botões de rosa reinavam absolutos. Ao chegar lá, seu Manuel abriu com dificuldade o portão verde e entrou a passos vacilantes. De imediato sentiu a atmosfera pesada do lugar.

- Pai, até que enfim!

Ele atravessou a cozinha em silêncio e entrou no seu quarto.

- Ah, não tem jeito, mesmo – diz a filha, balançando a cabeça.

Já no seu cantinho, ele se encontrou novamente com as fotos, bilhetes, cartas e tudo o mais que podia trazer recordações de uma época cheia de felicidades. Ali é o seu retiro, uma espécie de máquina do tempo que o faz viajar de volta ao passado.

Há muito tempo a idéia vinha martelando em sua cabeça, cada vez mais forte, como se tentando convencê-lo da sua necessidade. Seu olhar passeou pelos retratos que enfeitavam a cômoda sem se deter em nenhum. Sentado na beirada da cama, ele repassou mentalmente os detalhes do plano. Devia ser a milésima vez que fazia isso, mas nunca era demais, pois qualquer erro punha tudo a perder. Continuava metódico como sempre fora. Para sua filha, ele já estava senil, inútil. Melhor assim. Uma parte sua havia morrido com Laura. Não existia quase nada com que se importasse, até algumas semanas atrás.

Naquele dia, fazia três anos desde a morte dela. Ele passara a manhã inteira na igreja, rezando. Na hora do almoço, sua neta – a única coisa boa da casa, embora a mãe a estivesse estragando – perguntara-lhe:

- Vô, quando o senhor conheceu a Vó Laura?

Seu Manuel parara de comer e olhara a garotinha do outro lado da mesa. Sorrira. Então, baixara a vista para a comida no prato e, olhando através do pedaço de frango, respondera:

- Conheci sua avó em 1943, Sheila. Durante a Segunda Guerra. Eu estava parado numa banca de jornais, vendo as manchetes para saber o que estava acontecendo pra lá do Atlântico. Foi quando ela chegou e parou bem ao meu lado. Olhei para seu rosto. Era lindo. Pediu um jornal. Não hesitei. Ofereci-me para pagar. Ela aceitou. Dois anos depois também aceitaria meu pedido de casamento.

- E como foi?

Ele dera outro sorriso e continuara:

- Naquela época, morávamos no interior, numa cidade bem pequetitica, mas maravilhosa. Havia um lugar secreto que chamávamos de “recanto”. Pouca gente sabia que no alto de um daqueles morros existia um lugar tão bonito e tranqüilo daquele jeito. Parecia ter sido feito para nós: a relva em que pisávamos descalços, as árvores que nos abrigavam em suas sombras, a vista maravilhosa do sol poente... Era perfeito. Sempre íamos até lá nas tardes de domingo. Naquele dia especial eu estava decidido. Era ali ou nunca! Ela, de pé e de costas para mim, olhava a cidade lá embaixo; eu, sentado na grama, olhava o contorno do seu tornozelo.

Sorrira um sorriso de criança faceira. A neta não se agüentava:

- E aí?

Naquele momento, ele via além da parede.

- Saiu de uma vez só, com a cara e a coragem: “Laura, você quer se casar comigo?” Ela não se moveu. Ficou assim pelo que me pareceu uma vida inteira. O medo me atingiu como nunca antes. Tive suor frio, dor de barriga, calor, falta de ar... Tudo naquele instante. Quando se voltou para mim, notei a lágrima que deslizou pelo rosto e caiu na terra a seus pés. Ela sorria. “É o que mais quero neste mundo”, respondeu enfim. Posso dizer que aquele foi o momento mais feliz de toda a minha vida.

- Puxa, Vô. Que bonito!

O almoço acabara, mas a idéia permanecera na cabeça dele. Tinha de voltar àquele lugar. Precisava ver como estava agora, depois de tantos anos. Afinal, fariam Bodas de Ouro, se ela estivesse viva.

Seus olhos pousaram nas pequenas esculturas sobre o armário. Havia conseguido o dinheiro para a viagem vendendo uma das pequenas estátuas sem o conhecimento da filha, que sempre pegava tudo para “comprar remédios para ele”. Sairia escondido bem cedinho no dia seguinte, a tempo de tomar o ônibus das oito horas.



Acordou com a freada do ônibus. Ouviu o motorista gritar alguma coisa, mas não conseguiu entender o quê. Olhou em volta, percebendo que tudo estava como há alguns minutos atrás, pouco antes de adormecer. Ajeitou-se na poltrona reclinável e passou a observar o cenário que deslizava rapidamente lá fora. Faltava pouco para chegar. Sentiu um frio na barriga. Há quanto tempo não tinha uma sensação dessas? Com certeza, anos.

Quase não reconheceu a cidadezinha da sua juventude. No lugar de campos floridos, viu enormes prédios que serviam de hotéis para os visitantes. Das casinhas antigas, com o jardinzinho na frente e a areazinha para conversar com os amigos, pouco sobrara. A pracinha tinha encolhido para dar espaço a mais construções. Embasbacado, começou a passear por alguns quarteirões. Como tudo havia mudado! Mesmo assim, todo lugar trazia-lhe lembranças nas quais não hesitava embarcar, ficando, às vezes, minutos parado na calçada, imerso em pensamentos.

Não custou a encontrar a trilha que dava para o lugar secreto. Demorou-se muito mais que na mocidade, pois as pernas pareciam não querer obedecer. Parou para respirar várias vezes durante o trajeto, usando o chapéu para se abanar. Ao chegar ao topo, sentiu o coração disparar dentro do peito. Nunca as memórias daquele tempo haviam sido tão fortes como agora. Seu Manuel foi assaltado por uma leve tontura. Quanto tempo não passaram ali, conversando sobre o futuro, de mãos dadas, um beijo roubado de vez em quando...

Então, começou a reparar no lugar. Tudo estava como antes, exceto por uma coisa: aquela árvore não deveria estar ali, ele tinha certeza. Tentou precisar quantos anos ela teria. Achou que fossem muitos, pois era a mais frondosa e bonita dentre todas. De repente, algo lhe passou pela cabeça. Seria possível? Afobado, ele tentou se lembrar de onde sentara naquele domingo. Rapidamente, achou o local e com o auxílio da bengala colocou-se na mesma posição de anos atrás. Olhou para a árvore. Boquiaberto, percebeu que ela estava no exato lugar em que a sua Laura estivera no momento do pedido de casamento.

No mesmo lugar em que havia caído a lágrima.

Seu Manuel sorriu.

2 comentários:

Bom texto... terei que reler para fazer uma analise mais Filosofica...

HAUAHAUHAU, FICOU DAHORA! POSTAREI TRECHOS DE MEU ANTIGO FUTURO LIVRO

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Blog formado por estudantes abordando temas culturais como cinema, filosofia, música, tecnologia, arte, etc.

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