Gênio. Obra-Prima. Essas são duas palavras que parece que foram desvirtuadas ao longo do tempo, tiveram seu uso generalizado e perderam um pouco de seu impacto. Pois bem senhores, eis que eu contarei uma história agora de um gênio verídico, desses que são raros hoje em dia. Seu nome: Stanley Kubrick. O que ele tinha, que o diferencia de todos os outros diretores de cinema do mundo? Por que seus filmes eram tão diferentes mas ao mesmo tempo tão parecidos? São perguntas difíceis de responder. Ao longo da história da sua vida, que eu tentarei mostrar o mais fiel por aqui, partes dessas perguntas serão respondidas. Outras porém, são muito mais complicadas e difíceis de entender. E a essas indagações que ainda são um mistério, dá-se uma explicação: Gênio. Com vocês, o gênio do cinema: Kubrick.

Nova York, 26 de julho de 1928. De Jaques Leonard e Gertrude Kubrick nascia o pequeno Stanley. Foi lá no bairro do Bronx que ele viveu sua infância e frenquentou a escola, onde era um aluno apenas regular, até um pouco desajustado (o que parece ser um pré-requisito para se tornar uma pessoa célebre), mas seu pai era muito apegado à ele e achava o filho muito inteligente. Tanto que resolveu ensinar a Stanley a arte do xadrez, uma prática que durou até sua morte, sendo que tinha se tornado um exímio jogador. Pois bem. Quando o pequeno Stanley tinha apenas 14 anos, seu pai deu-lhe de presente uma câmera fotográfica, e depois disso, ele não queria saber de mais nada. Onde ele ia, a câmera ia junto. E foi assim até certo dia.


Foi em 12 de abril de 1945, quando o ex-presidente americano Roosevelt faleceu, que Stanley teve, pela primeira vez, a sua chance de brilhar. Ele tirou a seguinte foto, de um jornaleiro local:

Logo, a foto que o garoto Stanley tinha tirado despretenciosamente estava estampada na capa da conceituada revista Look, e, aos 16 anos, Kubrick ganhou o primeiro e único emprego de fotógrafo aprendiz da história da revista.


Foi durante sua experiência na Look Magazine que ele teve a oportunidade de dirigir vários curta-metragens, incluindo um que chegou a ter visibilidade na época, que era um pequeno documentário sobre um boxeador. A essa altura, Kubrick já sabia o que faria pelo resto da vida. Por isso, ele se demitiu da Look e resolveu seguir carreira no cinema, e, com a ajuda do papai Kubrick, ele conseguiu verba para digir seu primeiro filme - Fear and Desire (1953), que contava a história de um grupo de soldados em uma guerra fictícia, e nessa época Stanley tinha apenas 25 anos. A recepção da crítica foi positiva, mais o próprio Kubrick depois de algum tempo referiu-se ao projeto como amador e tentou exterminar todas as cópias do filme (dá pra achar na internet). Logo depois, em 1955, ele dirigiu seu segundo filme, um média-metragem chamado A Morte Passou por Perto, que contava a história de um triângulo amoroso entre um empregado, seu patrão e a mulher do patrão. O filme foi recebido friamente pela crítica.


Porém uma nova fase na carreira de Kubrick chegou em O Grande Golpe (1956), um filme noir que contava a história de um assalto a um hipódromo. O filme chamou a atenção dos executivos de Hollywood e recebeu uma arrecadação boa por parte do público. Uma das coisas que eu mais gosto no filme e que foram inovadoras na época foi o uso de um roteiro não-linear e o fato do filme mostrar visões diferentes do episódio dependendo do personagem (Alô, Tarantino!?). Com esse pequeno sucesso do filme anterior, Kubrick tinha agora uma reputação dentro do cinema e conseguiu, para seu próximo longa, a participação de Kirk Douglas, em Glória Feita de Sangue (1957). O filme conta a história de um grupo de soldados na primeira guerra, que, quando sãmandados para um ataque praticamente suicida contra os alemães, resolvem debandar. O filme é totalmente anti-guerra, e totalmente genial, que apesar de ser bem-recebido pela crítica, foi proibido em muitos países, entre eles a França e a Espanha.


Começo do sucesso


Depois do sucesso de Glória Feita de Sangue, Kubrick estava dando uma pausa em sua carreira. Foi quando ele recebeu uma ligação de Kirk Douglas, oferecendo para ele o trabalho de diretor de um filme grande, já que o outro que ocupava o cargo foi demitido por diferenças criativas. Kubrick aceitou.

O filme era Spartacus, contava a história de um escravo que liderava uma rebelião em roma. Tinha a direção de Anthony Mann, e Kubrick, aos 29 anos, assumiu sua posição, em que só faltava filmar as cenas finais. Kubrick refilmou o filme inteiro. Porém, mesmo sendo chamado por Kirk Douglas, os dois tiveram divergências sérias na hora de filmar, mas como Kirk era também o produtor executivo do filme, Kubrick perdeu a batalha e teve que fazer o filme do jeito que Kirk queria.

Há um episódio engraçado sobre esse filme, que o diretor de fotografia, famoso na época, que se demitiu da produção alegando que Kubrick fazia seu trabalho, e ele realmente fazia, tanto que terminou o filme como diretor de fotografia também. Mas o nome do fotógrafo antigo não tinha saído dos créditos, e ele acabou ganhando o Oscar pelo seu (?) trabalho.

O filme, apesar de datado (em algumas cenas pode-se ver que o fundo da cena é uma parede pintada), é realmente bom. Ganhou 4 Oscars inclusive, um de melhor ator coadjuvante, que acabou sendo o único Oscar que um ator ganhou sobre a direção de Kubrick. Também é notável a influência que o filme tem, inclusive hoje em dia, presente em filmes como Gladiador, este trabalho de Kubrick foi o primeiro grande êxito de sua carreira.

Porém Kubrick tinha ficado traumatizado com Hollywood e queria, dali por diante, ter liberdade artística em todos os trabalhos seguintes. Com essa mentalidade, ele foi para a Inglaterra em 1962, mais o próprio Kubrick afirmou que essa mudança não afetou o conceito de seus trabalhos.
No mesmo ano, ele iniciaria um projeto mais ousado, revelando como seria sua carreira até o fim.


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Em 1962, ele comprou os direitos do clássico da literatura Lolita, escrita por Vladimir Nabokov.
Criou-se então uma grande expectativa em torno do filme,
que conta a história de Humbert Humbert, um professor que se apaixona por Dolores, uma menina linda, a quem ele chama de Lolita, porque ela só tem 14 anos. O filme ainda conta com Peter Sellers, em uma atuação magnífica, fazendo o vilão da história. A atuação da garota é bastante natural e ao mesmo tempo provocante (pense em Angela Hayes, de Beleza Americana), aliás o filme inteiro é bastante natural, os diálogos são muito fluídos e imagino que Kubrick deve ter feito muitos takes de algumas cenas. Foi aqui que eu percebi pela primeira vez a iluminação excessiva dos sets tão característica dos filmes dele.

O filme não poderia ser mais bem feito. Esse, pra mim, é o primeiro filme do Kubrick como Kubrick, por ter uma temática controversa e mexer com o psicológico da platéia. Isso porque praticamente não tem nenhuma cena picante no filme (não espere nada do tipo Nelson Rodrigues), e a ação mais provocante da Lolita é o poster ao lado. Mais é aí que entra a genialidade - o filme só insinua. Quem vê a cena picante é voce, é a sua imaginação, o filme é apenas o condutor, mais é exatamente isso que faz um filme érotico. A capacidade de mexer com a mente do espectador. E Kubrick faz isso como ninguém.

Dois anos depois, Kubrick compra os direitos de mais um livro e consegue quebrar mais uma barreira, fazendo o filme que eu considero seu melhor filme.


Clássicos
A ideia era fazer um thriller de ação com o tema de uma ameaça nuclear, já que, na Guerra Fria estava começando a se tornar uma realidade. O que aconteceu foi que nas primeiras semanas de trabalho, Kubrick percebeu o potencial cômico do livro, uma sacada genial e ao mesmo tempo perigosa - brincar com a ameaça nuclear, uma coisa tão preocupante! Kubrick chamou então Peter Sellers para fazer três papéis no filme Dr Fantástico (1964), que conta a história de um comandante do exército que ficou louco e mandou vários aviões para um ataque nuclear contra a USRR. Na outra mão, vemos o presidente em reunião em sua sala de guerra com seus acessores e o tal Dr Fantástico, que pode ter a solução para o problema. Ainda acompanhamos a tripulação de um dos B52s do ataque.

Por ser a primeira grande comédia de humor negro do cinema, já merece meu voto. Dono de cenas antológicas, o filme é hilário e não é datado, eu assisti a última vez a 4 meses e ainda dou risada de algumas cenas, a maioria do grande mestre da comédia Peter Sellers, que se sai ridiculamente bem em todos os seus papéis (esqueça Eddie Murphy). Também foi neste filme que Kubrick teve sua primeira indicação ao Oscar de melhor diretor. Entre as cenas mais lembradas estão aquela em que dois acessores brigam na sala de guerra e o presidente diz: "Parem de brigar! Isso aqui é uma sala de guerra!", e a clássica do cowboy montando na bomba atômica enquanto ela cai. Mas também há momentos belos, como a cena da Terra explodindo ao som de ''We'll Meet Again'', uma música que as famílias cantavam para os filhos quando eles partiam para a guerra na Segunda Guerra Mundial. Obra-Prima.

Foram cinco anos de produção necessários para o seu próximo filme. O filme mais complexo de sua carreira, um dos mais complexos do mundo, e o pai de todos os filmes de ficção científica que vieram depois dele.

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2001: Uma Odisséia no Espaço. Provavelmente, esse é um dos filmes mais difíceis de se assistir da história do cinema. Chato - sem dúvida nenhuma. Lento - com certeza. Mais aí temos que parar para pensar: o filme foi feito em 1968, um ano antes de homem pisar na lua - um ano antes de o homem pisar na lua! E mesmo assim, o espaço e as espaçonaves criadas por Kubrick ainda são convincentes e atuais... Nada que exista nesse filme, nada mesmo, está ali de graça; O filme é lento e chato e Kubrick tinha total noção disso, e era justamente ESSE o efeito que ele queria causar no espectador. Você estava cansado de ver o astronauta demorar uma hora pra sair da nave e consertar uma peça? Kubrick queria ver você cansado. Kubrick queria ver você impaciente com o filme. Porque é assim que o astronauta, que está lá, no espaço, trocando a peça, se sente. Impaciente, cansado. Kubrick impõe o ritmo lento - do espaço - no filme. Porque o espaço é lento. Aí que está uma das maiores sacadas do filme e pra mim o melhor trabalho de direção que o Kubrick já fez.

O filme foi escrito em parceria com Arthur C Clarke, um dos maiores pioneiros da literatura de ficção científica, e conta a história de um monolito alienígina que habita a Terra desde a ''Aurora do Homem'' e parece emitir sinais de nosso mundo para outra civilização. Somente cerca de 4 milhões de anos depois que o homem vai a Júpiter investigar sobre esse monolito. O problema é que o computador que controla toda a nave - HAL 9000 -, tem um problema no meio da viagem e resolve exterminar todos os tripulantes. A cena inicial, dos macacos, é extremamente interessante e marcante, quando os macacos, depois de tocarem no monolito, criam a primeira ferramenta do mundo, um osso de um animal morto. Logo aí testemunhamos a primeira aparição da famosa musica de Richard Strauss, Also Sprach Zaratustra. A trilha sonora é magnífica, principalmente quando entra Danúbio Azul e Kubrick coloca vários satélites em órbita da Terra, como se estivessem dançando.

Visto do ponto técnico, é impressionante. Tomadas como a do astronauta correndo pela nave são genuínas representações da gravidade zero e que são muito realistas. A proposta que Kubrick compra, pra mim, é a reflexão sobre a evolução do homem, e, principalmente, das ferraments criadas pelo homem. Quando o macaco joga o osso pra cima, e ele se transforma em uma espaçonave, damos o maior corte temporal da história do cinema (4 milhões de anos), e Kubrick mostrou essa evolução de forma simples e direta. É quando chega a parte crítica da reflexão, que é quando o homem cria vida - em forma de ferramenta -, como o HAL 9000, um computador que é praticamente vivo, pois tem a capacidade de pensar e tomar decisões. Não vou contar o final, nem explicá-lo, pois como disse Kubrick: "Imagine se Lonardo daVinci colocasse, no cantinho da Mona Lisa, escrito: ela está sorrindo porque está apaixonada - perderia toda a graça"

Três anos depois, ele viria a fazer o filme que seria o seu mais controverso, famoso e explícito trabalho, sendo conhecido até hoje e tendo uma força muito grande como ícone cultural.

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Depois que seu projeto de levar as telas a história de Napoleão Bonarte foi por água abaixo, Kubrick comprou os direitos do livro de Anthony Burgess e levou as telas o projeto Laranja Mecânica (1971). O filme conta a história de Alex deLarge, um delinquente juvenil amante de música clássica que, eventualmente, é pego pela polícia e é submetido à um tratamento experimental, que promete acabar com os instintos violentos do rapaz. A maioria das atitudes tomadas no filme, para usar seu próprio termo, são ultraviolentas. Mais a reflexão que o filme propõe é bastante válida, e, mesmo o filme sendo em algum lugar do futuro, soa como atual, e sempre o irá ser.

Como o filme propõe mais ao expectador a ideia de refletir sobre o tema, as personagens são apenas plano de fundo para a ideia. A excessão é Alex, vivido por Malcom McDowell em ótima forma - uma grande atuação, sem dúvidas. E uma grande atuação sempre tem um grande sacrifício por trás. E no caso de Malcom, foi um puta sacrifício. Na cena em que ele se submete ao tratamento, aquelas ferramentas que servem para não deixá-lo fechar os olhos, elas cortaram a córnea dele e o deixaram cego por alguns instantes; Na cena da apredentação dos resultados do tratamento, quando aquele troglodita começa a bater nele, ele estava batendo mesmo - de verdade - e inclusive quebrou duas costelas do Malcom; Quando os ex-droogies batem nele e põe a cabeça dele em uma banheira de água, ele estava realmente sem respirar, e olha que a cena é longa.

A questão principal do filme é sobre a liberdade. Até aonde é justo com o ser humano tirar sua capacidade de escolha para o bem maior? Além disso, o filme fala também do modo como os agredidos por Alex, na primeira metade do filme, se tornam seus agressores, agredindo-o de forma até pior. Com um final pessimista, o filme consegue nos passar a mensagem correta sobre a juventude, algo que eu só vi posteriormente em ''O Selvagem da Motocicleta'', de Francis Ford Coppola.

O próximo grande filme de Kubrick possivelmente é o seu menos conhecido, porém, como sempre, um filme muito bom. Aqui Kubrick preza o perfeccionismo artístico, sempre levando em conta a fotografia e a iluminação - neste filme, as lentes usadas tinham tecnologia da NASA, e a iluminação era toda feita por velas e luz natural.

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Kubrick, fã de Makepeace Thackeray, um célebre escritor inglês, queria adaptar o romance Vanity Fair para as telas, mas o que aconteceu foi que ele se julgava incapaz de transpor a tela todo o conteúdo do filme. Por isso, resolveu adaptar outro romance do escritor, e o resultado foi Barry Lyndon (1975). O filme fala sobre como Redmond Barry, um cidadão qualquer irlandês, consegue alcançar a aristocracia inglesa e tornar-se o Sr Barry Lyndon, ao passo que, em pouco tempo, por não conseguir sustentar a situação, acaba por ser retirado da elite.

O filme é bem grande (3h) e possui um ritmo devagar, o que volta um pouco a discussão de 2001, mas de outro modo: aqui se mostra como é realmente demorado e difícil para alcançar uma reputação, mas tão fácil e rápido de se perdê-la. A reflexão que o filme propõe para mim é esta, um pouco simples, mas bem abordada no filme, pois o que rouba a cena são os aspectos técnicos. Kubrick usou esse filme, na minha opinião, como um exercício de perfeição técnica e artística, com destaque para as já supracitadas fotografia e iluminação, além da incrível direção de arte e figurinos (dizem que alguns são originais de época), os atores fizeram um bom trabalho, destaque para os coadjuvantes. Apesar de alguns incômodos durante o filme, é garantida uma boa experiência para o espectador.

O exercício de perfeição que Kubrick fez em Barry Lyndon poderia ser descrito como um ensaio antes da estréia de uma grande peça de teatro, pois o próximo filme de Kubrick viria a ser o que ele colocaria mais personalidade sua na direção, pela fotografia simétrica e tomadas longas.

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Baseado na obra do famoso escritor Stephen King, O Iluminado (1980) viria a ser mais uma virada na carreira do diretor. Logo após um trabalhado filme de época, Kubrick faria aqui um filme de gelar a espinha, mais uma vez marcado por insinuações psicológicas e temas obscuros. A história é de Jack Torrance, que recebe uma boa proposta para trabalhar em um hotel de temporada, no qual ele teria que tomar conta durante 6 meses, trabalhando como zelador, na época em que não há ninguém no hotel. O que acontece é que Jack, no meio da estadia, sofre de uma tal de ''Síndrome da Cabana'', em que pessoas se rebelam contra as outras quando ficam presas em um lugar durante muito tempo, e se convence de que tem que matar a família.

Grande atuação de Jack Nicholson (que diz nunca ter se livrado das características do personagem) e do resto do elenco, destaque para Shelley Duvall, a mulher de Jack, que sofreu na mão de Kubrick, dizem que ela teve que repetir uma cena mais de 100 vezes, até alcançar a tão almejada perfeição. Perfeição eque Kubrick conseguiu obter, no resultado final, com cenas impecáveis. A mais memorável é a sequência de Danny, filho do casal, andando de velotrol pelos corredores do hotel, onde foi usada a Steadicam, novidade na época. Há também a cena do sangue jorrando nas paredes, dizem que Kubrick escolheu as cores do papel de parede justamente para destacar o sangue caindo - ou o vestido das garotas mortas, para parecer que elas pertencem ao lugar. Apesar da excelente direção por parte de Kubrick, a crítica ridicularizou o filme e ele ganhou uma indicação ao Framboesa de Ouro de pior diretor.

O que me pegou no filme foi a maneira como ele humaniza o Jack, eu não conigo deixar de imaginar como eu (ou qualquer outra pessoa normal), se comportaria no lugar dele, provavelmente não seria tão radical, mais não é difícil ficar louco num ambiente desses. Stephen King disse que não tinha gostado do filme porque ele não tinha um clima de terror, e não focava nos fantasmas e etc, mais eu acho muito mais aterrorizante a metáfora que o Kubrick faz, acima de tudo - Isso poderia acontecer com você.

Kubrick ficou chateado com a recepção ruim do seu filme, e ficou muito tempo sem trabalhar, mas voltaria em ótima forma para a sua visão da guerra do Vietnã, assim como Coppola.

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Quase 10 anos após o fracasso de O Iluminado, Kubrick resolveu voltar a fazer filmes e voltar a fazer um filme de guerra - o último tinha sido Glória Feita de Sangue, exatamente 30 anos atrás. Mas dessa vez Kubrick queria dirigir um filme da guerra do Vietnã, que se chamava Nascido para Matar (1987). O filme é claramente dividido em duas partes, sendo a primeira o treinamento dos soldados para a guerra, e a segunda é a guerra em si. O personagem principal é o soldado Joker, mas isso só é definido porque ele também é o narrador, pois a maioria dos personagens tem um nível igual de importância na história.

A parte do treinamento é a mais divertida e mais despretenciosa, durante 20min só ouvimos a voz de um personagem, o impagável sargento Hartmann. A segunda é bem mais tensa e séria, como a guerra em si. Lá, Joker atua como repórter para uma revista, mas, eventualmente, ele tem que pegar a arma e partir para o combate. Kubrick, que sempre foi acostumado a filmar em estúdios, e ambientes fechados, se sai bem ao filmar um combate em grande área, com um grande trabalho de câmera. Tambem é retratada no filme a loucura da guerra, principalmente pelo sargento Hartmann e o soldado Pyle na parte do treinamento e pelo "Animal" na parte da guerra, mas é inevitavel a comparação com Apocalipse Now, que tem o melhor louco de guerra, o coronel Kurtz.

Apesar de o filme ser bem-recebido pela crítica, Kubrick ficou chateado dessa vez porque no mesmo ano foram lançados mais dois filmes de guerra do Vietnã, Platoon e Gritos do Silêncio. Foi só 12 anos depois que Kubrick iria lançar seu mais enigmático e último filme.

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Sem produzir nada por 12 anos, Kubrick finalmente comprou os direitos de um livro, Traumnouvelle, e decidiu embarcar em mais um projeto. Demorou dois anos para o filme ser feito, e havia uma grande expectativa, por ser sua volta ao cinema e por que o casal principal era, fora das telas, o casal numero um dos EUA - Nicole Kidman e Tom Cruise. O filme fala basicamente sobre o casal Alice e William, que, depois de irem à uma grande festa, Alice confessa a William que teve fantasias sexuais com outro homem. William, perturbado, vai encontrar seu amigo Nick, que acaba lhe mostrando um mundo de fantasias e jogos sexuais.

Visto do ponto técnico, é muito bom poder apreciar alguns enquadramentos e jogo de cores que Kubrick usa incansavelmente neste filme, com destaque para a parte que William entra na sociedade - e nós vamos ficando surpresos, assim como William, que só pelo olhar dele detrás da máscara dá pra dizer que ele está confuso. As atuações, com sempre em filmes de Kubrick, são quase perfeitas e incrivelmente naturais. Mas esse filme tem muito mais sub-textos e insinuações, escondidas atrás da história principal, mas isso é assunto para os filósofos e psicólogos, que terão mais prazer em explicar tudo do que eu, que demorei a perceber algumas coisas. Mas eu sei que a minha despedida de solteiro vai ser naquele lugar lá, meu deus do céu, que paraíso...

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E assim termina a história do nosso pequeno Kubrick, que morreu de um ataque cardíaco em 7 de março de 1999 (666 dias antes de 2001), mas sua presença ainda estava em outro filme que iria ser lançado posteriormente, AI: Inteligência Artificial, que Kubrick já vinha discutido bastante com Steven Spielberg. Devido a morte de Kubrick, Spielberg assumiu o projeto e nos entregou um grande filme, mesmo que sua direção não fosse, apesar de se esforçar, a mesma que Kubrick teria feito.

Quanto as perguntas no começo do post, o que fazem os filmes dele serem tão parecidos entre si, apesar de tão diferentes? A resposta está no jeito que Kubrick dirige cada um deles. Ele sempre vai deixar sua marca nos filmes, claramente perceptível - Na fotografia, sempre simétrica e reta, buscando a perfeição, até em tomadas longas e contínuas, bem fluídas, como Danny andando de velotrol em O Iluminado. Na direção de arte, onde ele mexe com as cores do filme para nos dar a impressão que ele quer; E, talvez a mais clara para mim (sem trocadilhos), é a iluminação. Todos os filmes dele tem uma iluminação muito, muito forte. É bem perceptível em O Iluminado tembém (sem trocadilhos, de novo), que é uma das melhores coisas do filme, pois quase todos filmes de terror e suspense tem aquele clima escuro e fechado, mas Kubrick explode em iluminação e cores. Por último, a sua própria direção de atores, onde o mise-en-scène é controlado, natural e fluído. Como tudo em Kubrick.

Se tem alguma coisa que eu aprendi nos filmes dele, foi que cinema é uma troca. Você exige do filme, o filme também exige de você. No caso dos filmes de Kubrick, eles exigem toda sua energia, e você sai do filme como se tivesse passado por uma viagem. Viagem esta que só acaba ao ver, no final, a frase: Directed by Stanley Kubrick. Então você se rende à genialidade deste verdadeiro Mestre do cinema.


4 comentários:

Maravilhoso o seu texto! Kubrick foi um dos maiores gênios da história do cinema mundial. Eu o comparo, por seu intelecto (sem exageros) a Chaplin, Orson Welles e Eisenstein. Uma pena que tenha falecido. Está fazendo falta no atual cinema.

Um dos melhores posts sobre Kubrick parabéns

valeu!

nossa, muito bom o seu texto. estou tentando terminar de ver a odisséia no espaço há tempos, mas sempre dormia depois da parte dos macacos. acho que hoje eu consigo terminar.

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