Nessa semana resolvi retornar ao erudito, Bach e sua "Chaconne" para violino.

Interpretado pela talentosa violinista  Viktoria Mullova.

Esse é o segundo post que faço sobre Parmênides. No primeiro, disse que não se devia encarar Parmênides com aquela imagem vulgata, de um completo imobilista e monista, que enxerga a realidade, e um ser dificil de ser compreendido, como um uno-todo, mas que devemos ler o poema e buscar em cada fragmento leituras distintas para criar nossas certezas.

Basicamente, a ideia do primeiro fragmento, que segundo muitos acreditam constitui realmente a introdução do poema, é a de introduzir o leitor ao que será falado. Vemos neste fragmento um viajante, que não é qualquer um, mas um homem sábio, que cavalga sob éguas. Ele cavalga em um caminho; este é o caminho pelo qual as Filhas do Sol a guiam, o caminho para o Portal da Noite e do Dia, um portal guardado pela Justiça, que fará o viajante, ao transpassá-lo, alcançar uma Deusa, inominada, que o ensinará as coisas que deve conhecer: a verdade intrépida e persuasiva, e as opiniões dos mortais, onde não há fé verdadeira. São esses dois ensinamentos que constituirão o que é conhecimento, no decorrer do poema.

O que pretendo fazer aqui é uma análise mítica deste proêmio. Mas antes disso, devemos lembrar que o tempo em que o poema fora escrito era um tempo onde começavam a aparecer os primeiros filósofos, onde começava uma transição do mito para o pensamento filosófico. Agora que se começava a encontrar fundamentos e conceitos naturais a partir da própria natureza, diferente dos mitos de Homero ou Hesiodo, onde a explicação se dava no plano mítico.

Parmênides se apropria do poema em hexâmetros dactílicos (modo em que Homero escrevia), com rimas feitas à forma clássica, e não só faz isso, como também se apropria das figuras míticas outrora usadas em outras obras gregas, e populares, para dizer novas coisas sobre a realidade e os fenômenos físicos. Podemos dizer que aqui há heranças e rupturas. Ao mesmo tempo que Parmênides faz parte de um novo tipo de pensamento, diferente do mito, ele se apropria do mito para dizer o que diz. Uma boa questão para nos colocarmos é: Essa apropriação se dá com o mesmo sentido que os mitos utilizavam ou Parmênides utiliza os termos míticos com outras significações?

Vamos à análise mítica:


No Proêmio, o viajante é introduzido em seu caminho por Numes, e é conduzido em seu caminho pelas Filhas do Sol, as Helíades.

- Numes são divindades de intermediação, pelas quais os homens podem aceder ao plano divino. Eles são como gênios inspiradores.
- As Helíades, ou Filhas do Sol, são as filhas de Hélios, o sol no panteão arcaico, provedor de luz. Nelas vigem vida conhecimento e beleza. São equivalentes às musas de Apolo. É uma tradição poética invocá-las no início dos poemas, e Parmênides não abandona essa tradição, que é como um ritual para a conquista do 
conhecimento.

Seguindo-se o poema, essas Helíades levam o viajante no caminho, levando-o dos domínios da Noite para a Luz, onde ficam as portas dos caminhos da Noite e do Dia.

- A Luz desempenha uma função orientadora, sendo a meta do viajante. A meta dele é sair dos domínios da Noite.
- A linhagem hesiódica da Noite é importante para entendermos o contexto do viajante. Seus filhos: Lote, Sorte negra e Morte, Sono e os Sonhos, Escárnio e Miséria, as Hespérides guardiãs do Ocaso e as três Parcas, Vingança, Engano, Amor, Velhice e a Ira de Ânimo Cruel, cujos filhos são: Fadiga, Olvido, Fome, Dores, Batalhas, Combates, Massacres e Homícidios, Litígios, Mentiras, Discursos e Disputas, Desordem, Derrota e Jura.
- Deixar a Noite em direção à luz configura uma transformação no plano ético. Os valores da Noite devem dar lugar aos valores diurnos, da legalidade, da justiça e da verdade.

Quem detém as chaves do portal da Noite e do Dia é a Justiça. Ao seguir o caminho, o viajante encontra a Deusa, que o acolhe afavelmente, dizendo que foi nenhuma Moira ruim que o guiou no caminho, que é um caminho proibido aos homens, mas fora Norma e Justiça.

- A Justiça, ou Dike, é a juíza das ações humanas. Ela não só julga, como indica o melhor caminho que o homem deve seguir.
- A Deusa, inominada, é aquela que prescreve o que é, o que não é, e o que deve ser seguido pelo viajante, em relação ao conhecimento.
- Moira é o destino, mas no caso do poema, tem seu melhor sentido como “partida”. Ela não seria o extremo fim, mas um extremo começo, uma parte separada, um momento de separação.
- Norma é a expressão da lei divina, uma lei conforme a ordem dos deuses, a despeito das opiniões humanas.

Por fim, é só pessoal. Leiam o poema, busquem mais sobre mitologia grega. Deixo algumas dicas de "leituras complementares":


Que tal começar a semana com um eletro dançante? Vamos, animem-se!


Para meio de semana, nada melhor que um folk calmo, relaxante...

Imagine que você fosse um sábio. Imagine que você fizesse um poema paradoxal, genial, de difícil interpretação, e que, após um tempo, um outro sábio formasse uma imagem equivocada sobre você. Imagine agora que todos os leitores posteriores de seu poema não conseguissem deixar essa caricatura sua e só falassem de você e de seu poema com base nessa caricatura vulgata feita por este sábio.

Assim, por muito tempo, têm sido as interpretações dos poemas de Parmênides. Se você se deparar com um dicionário de filosofia, um romance sobre uma menina curiosa, ou mesmo livros sobre filosofia clássica, é bem capaz de, nas descrições sobre Parmênides, aparecerem unânimes as suas características - aristotélicas - básicas: um completo imobilista, que nega a multiplicidade de fenômenos para defender uma realidade sempre estática, que defende a existência apenas de um "ser" dificilmente compreendido... E por aí vai.

Para piorar, do Poema de Parmênides temos apenas fragmentos que restaram de um estudo feito por diversos filólogos. São 19 fragmentos ao total - existindo outros 6 fragmentos duvidosos - organizados em ordem de sucessão, próxima ao original. Eles foram organizados por Hermann Diels e Walter Kranz, quando ganharam suas numerações. O poema é dividido em três partes. A primeira sendo o proêmio, onde há um viajante guiado por uma Deusa às vias de questionamentos concebíveis e ao conhecimento verdadeiro. A segunda parte, trata-se do discurso dessa Deusa sobre o conhecimento da Verdade. Por fim, há a terceira parte, onde é exposto o discurso das opiniões dos mortais.

Sendo este o primeiro post dessa série, aqui não faço nenhuma interpretação ainda. Para cada fragmento (alguns, com dois ou três fragmentos) haverá um post, apresentando diferentes interpretações, as controvérsias, o intuito de parmênides - especulação - ao escrevê-los... O que renderá bastante conversa com vocês, leitores. Para que tenhamos uma leitura rica, devemos primeiro deixar a imagem vulgata aristotélica de Parmênides. Devemos priorizar a análise do seu texto, dos originais, para assim ter a oportunidade de compreender melhor este filósofo que impressionou tanto Platão como Hegel e Einstein.

Deixo aqui disponível o link dos Anais de Filosofia Clássica do IFCS-UFRJ, onde há, além de diversos comentários sobre o Poema, uma versão ótima, download gratuito, comentada, sobre o Poema - inclusa a versão original grega: http://www.ifcs.ufrj.br/~afc/

Para finalizar a semana, apresento um clipe com uma música bem suave, gostosa de ouvir a qualquer hora. Marble Sounds com The time to Sleep.



Nessa semana temos uma música interessante, ambiental, variando em vários estilos, desde clássico até eletro. Boa para relaxar, tomar um café e refletir a vida.

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